Conteúdo elaborado por: Drº Otávio Corrêa
As doenças cardíacas em gatos merecem atenção justamente porque podem permanecer silenciosas por muito tempo. Diferentemente do que ocorre em muitos cães, gatos com alterações no coração nem sempre apresentam sinais evidentes nas fases iniciais. Por isso, não é incomum que uma cardiopatia seja identificada durante uma consulta de rotina ou somente quando o quadro já está mais avançado.
Entre as doenças que afetam o coração dos felinos, as cardiomiopatias – alterações que envolvem o músculo cardíaco – têm especial importância. Dependendo do tipo e da gravidade, elas podem evoluir para insuficiência cardíaca congestiva, formação de trombos e tromboembolismo arterial ou, mais raramente, morte súbita (LUIS FUENTES et al., 2020).
A boa notícia é que nem todo gato com uma alteração cardíaca desenvolverá complicações. Entretanto, reconhecer fatores de risco, acompanhar o paciente e investigar alterações suspeitas permite entender melhor a condição de cada gato e definir os cuidados mais adequados.
Cardiomiopatia hipertrófica: a doença cardíaca mais comum em gatos
Entre as doenças cardíacas em gatos, a cardiomiopatia hipertrófica (CMH) é a forma mais frequentemente identificada.
Na CMH, ocorre principalmente um espessamento da musculatura do ventrículo esquerdo, uma das câmaras responsáveis por bombear o sangue para o organismo. Com esse espessamento, o coração pode ter menos espaço para receber sangue durante a fase de relaxamento, chamada diástole.
Além disso, o músculo cardíaco pode apresentar maior dificuldade para relaxar adequadamente. Como consequência, em determinados pacientes, ocorre aumento da pressão dentro do átrio esquerdo e dos vasos pulmonares (LUIS FUENTES et al., 2020).
A CMH também não é considerada uma condição rara. Estudos realizados em gatos aparentemente saudáveis encontraram prevalência próxima de 15%. No estudo CatScan, que avaliou 780 gatos, 14,7% apresentavam critérios ecocardiográficos compatíveis com cardiomiopatia hipertrófica (PAYNE; BRODBELT; LUIS FUENTES, 2015).
No entanto, receber um diagnóstico de CMH não significa necessariamente que o gato apresentará sintomas ou ficará gravemente doente.
Muitos felinos apresentam a doença de forma subclínica, ou seja, possuem alterações no coração, mas não demonstram sinais perceptíveis no dia a dia. Alguns podem permanecer estáveis durante anos.
Por outro lado, determinados pacientes apresentam maior risco de desenvolver complicações, principalmente insuficiência cardíaca congestiva (ICC) e tromboembolismo arterial (TEA). Entre os fatores associados a esse risco, o aumento do átrio esquerdo merece atenção especial (LUIS FUENTES et al., 2020).
Quais outras doenças cardíacas podem afetar os gatos?
Embora a cardiomiopatia hipertrófica seja a mais frequente, ela não é a única cardiopatia que pode afetar os felinos.
A cardiomiopatia restritiva, por exemplo, está relacionada principalmente à dificuldade de enchimento do coração e pode estar associada a alterações do endocárdio ou do próprio músculo cardíaco.
Já a cardiomiopatia dilatada, atualmente menos frequente, é caracterizada pela dilatação das câmaras ventriculares acompanhada de redução da capacidade de contração do coração. Historicamente, alguns casos foram relacionados à deficiência de taurina, aminoácido essencial para os gatos.
Além disso, existem outras formas de doença miocárdica, alterações do ritmo cardíaco e doenças congênitas (LUIS FUENTES et al., 2020).
As cardiopatias congênitas estão presentes desde o nascimento e incluem alterações estruturais como defeitos do septo ventricular e estenoses, que correspondem ao estreitamento anormal de determinadas estruturas cardíacas.
Em um estudo envolvendo mais de 57 mil gatos sem raça definida, a prevalência de cardiopatias congênitas foi de aproximadamente 0,14%, sendo os defeitos do septo ventricular as alterações identificadas com maior frequência (SCHROPE, 2015).
Meu gato tem sopro. Isso significa que ele tem doença cardíaca?
Não necessariamente.
O sopro cardíaco em gatos é um achado relativamente comum durante a auscultação — quando o médico-veterinário escuta o coração utilizando o estetoscópio — e sua presença não significa automaticamente que exista uma alteração estrutural cardíaca.
No estudo CatScan, 40,8% dos gatos avaliados apresentavam sopro. Entre eles, 70,4% foram classificados como portadores de sopros funcionais, isto é, sem alteração cardíaca estrutural identificada ao ecocardiograma (PAYNE; BRODBELT; LUIS FUENTES, 2015).
Por outro lado, ocorre também o contrário: um gato com doença cardíaca pode não apresentar sopro.
Portanto, uma auscultação aparentemente normal não é suficiente para excluir completamente a possibilidade de cardiopatia. Alguns gatos com CMH, por exemplo, são diagnosticados apenas durante exames de rastreamento ou após desenvolverem manifestações clínicas (PAYNE; BRODBELT; LUIS FUENTES, 2015).
Por isso, diante da presença de sopro, alterações do ritmo cardíaco, som de galope ou histórico clínico sugestivo, o médico-veterinário pode recomendar uma investigação cardiovascular mais completa.
Quais sinais de doença cardíaca em gatos devem chamar a atenção?
Um dos principais desafios das doenças cardíacas em gatos é que muitos pacientes não apresentam sintomas nas fases iniciais.
Quando a doença passa a provocar manifestações clínicas, alguns sinais merecem atenção:
- Respiração mais rápida, especialmente durante o repouso ou sono;
- Dificuldade ou esforço para respirar;
- Menor disposição ou cansaço;
- Redução do apetite;
- Maior isolamento ou mudança no comportamento;
- Episódios de fraqueza ou desmaio;
- Dificuldade ou incapacidade súbita de movimentar as patas, principalmente as traseiras.
A dificuldade respiratória é uma das manifestações que podem ocorrer quando o gato desenvolve insuficiência cardíaca congestiva.
Já a perda súbita da movimentação dos membros, especialmente dos posteriores, pode estar relacionada ao tromboembolismo arterial, uma complicação grave associada às cardiomiopatias felinas (LUIS FUENTES et al., 2020).
Nesse contexto, é possível compreender a formação dos trombos por meio da chamada tríade de Virchow, que reúne três fatores capazes de favorecer a trombose: alterações no fluxo sanguíneo ou estase, alterações do endotélio – a camada interna dos vasos – e hipercoagulabilidade.
Gato respirando de boca aberta é emergência?
Sim. A respiração de boca aberta em gatos deve ser considerada um sinal de alerta importante.
Diferentemente dos cães, gatos não costumam permanecer ofegantes como um comportamento fisiológico habitual. Portanto, quando há respiração de boca aberta, especialmente acompanhada de esforço respiratório, fraqueza ou prostração, o atendimento veterinário deve ser procurado imediatamente.
Além das doenças cardíacas, diferentes problemas respiratórios e outras condições graves podem provocar esse sinal. Por isso, não é indicado aguardar para observar se o quadro melhora sozinho.
Como descobrir se o gato tem uma doença cardíaca?
A investigação das doenças cardíacas em gatos começa pela avaliação clínica.
Durante a consulta, o médico-veterinário pode avaliar o ritmo e os sons cardíacos por meio da auscultação, além da frequência respiratória e de outros parâmetros do paciente. Quando indicado, também pode ser realizada a aferição da pressão arterial.
Entretanto, quando há suspeita de cardiomiopatia, um dos exames mais importantes é o ecocardiograma.
O exame permite observar a estrutura do coração em movimento, avaliar a espessura de suas paredes, o tamanho das câmaras cardíacas, o funcionamento das válvulas e características do fluxo sanguíneo.
Segundo o consenso do American College of Veterinary Internal Medicine (ACVIM), a ecocardiografia é atualmente o principal exame para o diagnóstico e a classificação das cardiomiopatias felinas, além de fornecer informações relevantes para avaliação prognóstica (LUIS FUENTES et al., 2020).
Dependendo do quadro clínico, outros exames podem complementar a investigação, como:
- Radiografias do tórax;
- Eletrocardiograma;
- Ultrassonografia pulmonar;
- Aferição da pressão arterial;
- Dosagem de NT-proBNP;
- Dosagem de troponina cardíaca.
O NT-proBNP, por exemplo, é um biomarcador que pode auxiliar na investigação de alterações cardíacas, especialmente quando a ecocardiografia não está imediatamente disponível. Entretanto, um resultado normal não elimina completamente a possibilidade de cardiopatia, sobretudo em casos mais leves (LUIS FUENTES et al., 2020).
Por isso, os resultados devem sempre ser interpretados em conjunto com o exame clínico, histórico do paciente e demais exames complementares.
Todo gato com doença cardíaca precisa tomar medicamentos?
Não. A necessidade de tratamento depende do tipo de cardiopatia, de sua gravidade, das alterações encontradas nos exames e do risco individual de complicações.
Alguns gatos apresentam alterações cardíacas leves e permanecem sem sintomas. Nesses casos, o acompanhamento periódico pode ser a principal conduta, sem necessidade imediata de medicação.
Para auxiliar nessa avaliação, o consenso do ACVIM propõe uma classificação das cardiomiopatias felinas em diferentes estágios (LUIS FUENTES et al., 2020):
Estágio A: gato predisposto a desenvolver cardiomiopatia, mas ainda sem evidências de doença miocárdica.
Estágio B1: existe cardiomiopatia, mas o gato permanece assintomático e apresenta baixo risco de desenvolver insuficiência cardíaca congestiva ou tromboembolismo arterial em um futuro próximo.
Estágio B2: existe cardiomiopatia e o gato continua sem sinais clínicos, porém apresenta alterações associadas a maior risco de insuficiência cardíaca congestiva ou tromboembolismo arterial.
Estágio C: o gato apresenta ou já apresentou insuficiência cardíaca congestiva e/ou tromboembolismo arterial.
Estágio D: há insuficiência cardíaca congestiva refratária, isto é, com resposta inadequada ao tratamento convencional.
Nos pacientes com maior risco de formação de trombos, por exemplo, o médico-veterinário pode considerar o uso de medicamentos antitrombóticos.
Por outro lado, gatos que desenvolveram insuficiência cardíaca podem necessitar de medicamentos específicos para reduzir o acúmulo de líquidos e controlar as consequências da doença.
Em todos esses cenários, o tratamento deve ser individualizado. Não existe um único protocolo adequado para todos os gatos com cardiopatia, e medicamentos nunca devem ser utilizados por conta própria.
É possível prevenir doenças cardíacas em gatos?
Nem todas as cardiopatias podem ser prevenidas. Algumas possuem componentes genéticos ou características individuais que não podem ser modificadas.
No entanto, o acompanhamento veterinário periódico desempenha um papel importante na identificação precoce de alterações.
Além disso, o tutor pode observar alguns parâmetros em casa. A frequência respiratória durante o sono, por exemplo, pode ser acompanhada em determinados pacientes sob orientação veterinária. Mudanças persistentes na respiração, no apetite, na disposição ou no comportamento também devem ser valorizadas.
Em gatos idosos, pacientes com sopro, alterações do ritmo cardíaco, som de galope ou predisposição para cardiomiopatias, o médico-veterinário pode recomendar uma avaliação cardiovascular específica.
Doenças cardíacas em gatos podem ser silenciosas
Talvez este seja o ponto mais importante para quem convive com gatos: parecer saudável não significa necessariamente não possuir uma alteração cardíaca.
Muitos felinos com cardiomiopatias mantêm uma rotina aparentemente normal e não demonstram sintomas durante longos períodos. Por isso, consultas veterinárias regulares são importantes não apenas quando há sinais de doença, mas também como parte dos cuidados preventivos.
Quando existe alguma alteração na auscultação ou um fator de risco, exames como o ecocardiograma e o eletrocardiograma podem ajudar a compreender melhor a saúde cardiovascular do gato.
Além disso, identificar uma cardiopatia não significa automaticamente um prognóstico ruim. Cada paciente apresenta características próprias, e muitos gatos permanecem estáveis por longos períodos com acompanhamento adequado.
O mais importante é conhecer a condição do coração daquele gato, acompanhar sua evolução e tomar decisões baseadas no risco individual.
Referências
FERASIN, L. Feline myocardial disease: 1: Classification, pathophysiology and clinical presentation. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2009.
LUIS FUENTES, V. et al. ACVIM consensus statement guidelines for the classification, diagnosis, and management of cardiomyopathies in cats. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 34, p. 1062–1077, 2020.
PAYNE, J. R.; BRODBELT, D. C.; LUIS FUENTES, V. Cardiomyopathy prevalence in 780 apparently healthy cats in rehoming centres (the CatScan study). Journal of Veterinary Cardiology, v. 17, p. S244–S257, 2015.
SCHROPE, D. P. Prevalence of congenital heart disease in 76,301 mixed-breed dogs and 57,025 mixed-breed cats. Journal of Veterinary Cardiology, 2015.
Onde realizar avaliação cardiológica para gatos em São Paulo?
Em casos de suspeita de doença cardíaca, sopro, alterações respiratórias ou necessidade de acompanhamento cardiológico, a avaliação veterinária é essencial para compreender o quadro e definir a melhor conduta para cada gato.
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